Quebra de Protocolo XI -
Depois de tantas emoções durante um final de semana que parecia não querer mais terminar, ele finalmente chega em Jequié. Desce do carro com versos na cabeça que diziam: "Eu não sou o jornal de ontem. Eu sou um livro a ser escrito. Eu já não sou mais notícia velha e abandonada. Eu sou versos e páginas compondo uma estrada". Sereno e risonho consigo mesmo, ele logo manda uma mensagem de texto via rede social para Elian para saber como ela estava, pois ao se despedirem em Barra Grande, ele nota que ela não se sentia muito bem. Não sabia ele se por causa das fortes emoções vividas entre eles naquele paraíso ou se realmente por um problema de saúde. Toma um bom banho pensado como foi bom tê-la de forma tão simples e tão profunda nas areias de uma praia deserta. descansa um pouco e sai para comer algo com amigos. Enquanto ele estava à mesa dando risadas e se descontraindo, recebe uma mensagem dela que dizia: " Oi, meu amor. Desembarquei no aeroporto e logo fui para casa, pois ainda me sentia enjoada e um pouco tonta. Mas agora tá tudo bem, graças a Deus. Aquela moqueca não me fez bem. Tomei um remédio e vou me deitar um pouco. Até mais. Se cuide. Te amo". Ele se sentia um pouco mais aliviado, mas na verdade ele queria mesmo era estar do lado dela para deixá-la mais calma e segura, porém as atividades dos dois os impediam, de certa forma, a realizar tal vontade. Os dias seguintes foram muito corridos para ambos. O que lhes traziam um pouco de calma às suas almas era ter como plano de fundo músicas românticas como Thinking out loud e Give me a reason. Isso fazia com que seus dias e distâncias fossem mais curtos e lhes traziam um ar de leveza e alegria. Era bom deixar o pensamento voltar no tempo sem que ninguém a suas voltas percebessem. Era como uma quebra de regra, uma quebra de protocolo. Mais dias se passaram quando em sua caixa de emails ele recebe um que dizia que Elian não estava bem há dias e que ele precisaria ir a Salvador para saber o que estava acontecendo. O email estava em nome de Anne, uma amiga dela. Dizia que se tratava de uma informação confidencial e que ele não deveria revelar seu nome e nem a sua atitude. Falava que estava muito preocupada com o estado de saúde de Elian, uma vez que não estava bem, havia faltado à faculdade algumas vezes e estava muito recolhida em casa. Coisas que não eram comuns a ela fazer. Dizia que ela tinha uma consulta marcada com um cardiologista em dois dias e que seria bom que ele viesse vê-la, pois temia que estivesse com uma doença grave e rara. Aquela notícia era a pior de todas. Aquilo não poderia estar acontecendo! Pensava ele desesperadamente. Ela não havia lhe contado nada. Por quê? Queria ela poupá-lo de tamanha dor? Ele não conseguia mais se concentrar em mais nada. Pedia a sua assistente que cancelasse todos os seus compromissos daquela semana e solicitou ao motorista que revisasse seu carro e enchesse o tanque, pois na manha seguinte ele teria que fazer uma viagem de emergência. À meia noite partiu em direção à capital da Bahia. A estrada lhe parecia maior, talvez duplicada. Os 367 quilômetros que separavam as duas cidades não se findavam mesmo com a velocidade de seu carro variando entre 180 e 140 quilômetros por hora. As preocupações lhe chegavam à mente nas mesmas velocidades. O trajeto embora parecesse longo, estava calmo com poucos carros na estrada. Mas a sensação de tentar descobrir o que estava se passando com Elian, o seu grande amor, lhe deixava transtornado. Pensava em não ter a oportunidade de, mais uma vez, não poder se despedir dela. Eram tantas perguntas sem respostas que aquela situação mais lhe parecia história de novela ou filme sobre um amor impossível. Quando não eram as pessoas tentando afastá-los e impedi-los de serem felizes, era a própria vida ou destino quem o fazia. O relógio marcava três e meia da manhã e antes de chegar na cidade de Feira de Santana, ele estava no final da reta quando se distrai com seu celular vibrando e quando volta a olhar para a pista, se depara com uma curva muita fechada. Ele pisa fortemente nos freios, mas não consegue conter o veículo que gira para um lado e para o outro, oscilando ora entre o meio e a contramão da pista quando se depara com uma grande carreta que vinha em alta velocidade tentando fazer a curva adentrando um pouco na faixa em que ele estava. Numa tentativa desesperada para fugir da morte, ele consegue girar o volante do carro para a esquerda, mas mesmo assim ele é atingido pela carreta que bate na parte do fundo, fazendo o carro rodar várias vezes antes de capotar por cinco vezes despenhadeiro abaixo. Ele acorda num lugar escuro e muito frio. O cheiro era forte. Sabia que ali não era o inferno, pois não cheirava a enxofre e sim a éter. Escutava um bipe ao longe e luzes de led de aparelhos que davam uma certa iluminação ao ambiente. Tentava coçar a testa quando viu que havia uma agulha em seu braço e alguns eletrodos em seu peito. Quis levantar mas não sentias suas pernas. Logo a enfermeira veio ao seu encontro, acendendo as luzes do quarto que lhe incomodavam muito às vistas. Quando vê vindo ao seu encontro mais duas enfermeiras e dois médicos. Entravam apressadamente.Tentavam tranquilizá-lo dizendo que estava tudo bem. Contaram-lhe que ele estava em coma há dois meses por conta de um grave acidente de carro. Logo ele começa se lembrar vagamente do acontecimento. Lembra até o momento em que perdera o controle do carro. Estava pensando como se tivesse sonhado ou tentava criar em sua imaginação algo baseado nos relatos ouvidos. No dia seguinte ele é levado para fazer uma série de exames e testes. Recebe a visita de sua mãe e de dois amigos. Fica sabendo que ele fraturou as duas pernas, levou um corte profundo na barriga e bateu fortemente com a cabeça em partes do carro, embora estivesse usando sinto de segurança e o Airbag tivesse funcionado perfeitamente. Chora muito ao ver as fotos do acidente. Sabia, de algum modo, que ele havia nascido outra vez. A reportagem num jornal local dizia que o corpo de bombeiros teve muito trabalho para fazer o resgate, pois o carro havia caído entre valas e estava totalmente amaçado. Tiveram que usar macaco hidráulico para retirá-lo daquela situação. Perda total do carro. Na manhã seguinte, quando ele voltava da fisioterapia, ao entrar em seu quarto, ele percebe que havia flores sobre uma pequena mesa que ficava próximo à cama. Ao se aproximar para ler o cartão, dá-se conta de que havia uma caixinha que lhe parecia um presente. Ao abrir a caixa, ele começa a sentir água descendo de seus olhos, eram lágrimas. Buscava algo em que se apoiar, levando a mão esquerda ao rosto para conter as dores. Um cartão retirado de um dos sapatinhos azuis de neném dizia: "Oi, papai. Passando para dizer que em mais alguns meses estarei em seus braços". Quando, com dificuldades, sem saber muito bem o que aquilo significava, apoia-se na cama radiante de felicidade, sente duas mãos fechando os seus olhos por trás dele. Claro, só poderia ser alguém íntimo dele, mas ele não conseguia lembrar quem. Aquele cheiro era inconfundível e levava seus pensamentos a alguém em algum lugar. Quando se abraçam e se beijam e choram juntos por estar vivo, por rever um ao outro. Ela se senta ao seu lado e lhe conta que sentia muito pelo que havia acontecido a ele. Ela havia pedido a sua amiga, Anne, que lhe mandasse um email contando o que ela havia dito. Dizia chorando muito que ela tentou dizer que estava grávida através de uma surpresa. E que o endereço da clínica passado por ela não era de um cardiologista e sim de uma clínica pediátrica e que lá ela lhe revelaria que estava esperando um bebê dele. Queria fazer de forma diferente, surpreendê-lo. Contou-lhe, ainda, que enquanto esperava para ser atendida, tomou conhecimento de seu acidente que foi relatado por um canal de TV local que dizia: FAMOSO ESCRITOR BAIANO SOFRE GRAVE ACIDENTE EM FEIRA DE SANTANA. Durante o período de dois meses lhe fizera várias visitas, contava-lhe ela. Embora fortemente emocionado, aquela mulher não lhe parecia conhecida, ou ele estaria sonhando? perguntava-lhe ele a si mesmo. Ela continua acariciar o rosto daquele que era o homem de sua vida. Aquele que não saíra de seus pensamentos e que agora estava literalmente com uma parte sua no ventre. Não! Isso não seria possível. Isso não pode ser verdade. Pensava ela profundamente abalada com a ideia de que ele poderia ter perdido a memória naquele trágico acidente. Correndo apressadamente, passando suas mãos pelo rosto e cabelo ela sai pelos corredores do hospital, tentando encontrar alguém que lhe explicasse o que havia acontecido. Ela tinha o direito de saber, de ser informada. Grita loucamente e bate com as duas mãos no balcão da recepção do Hospital exigindo que o médico responsável por ele seja chamado para que tudo fosse esclarecido quando alguns médicos e enfermeiros correm em sua direção. Para tentar acalmá-la, eles a levam para o consultório do Dr. Eduardo Winner, médico especialista no funcionamento do cérebro humano, então ele após tranquilizar Elian, começa a lhe explicar que a memória envolve um processo de codificar, armazenar e então recuperar informações. Diferentes áreas do cérebro estão envolvidas no processo de memória, dependendo do tipo de memória e do tipo de informação que ela contém e que no caso em questão, o acidente havia causado uma espécie de pane que eles ainda não sabiam se seria momentânea ou permanente. Explicou-lhe ainda que os processos de decodificação, codificação e armazenamento sensorial dele estavam funcionando em estado normal aparentemente, mas que os mecanismos que envolviam a memória de curto prazo, de longo prazo, memória declarativa, semântica e emocional pareciam estar em conflito o que fazia com que não se lembrasse de nada ou vagamente de alguns eventos de sua vida. Elian, após ouvir toda aquela explicação que mais lhe parecia descrição de um pesadelo sem fim, passa em frente ao quarto onde o seu amado está e apenas o observa pela janela de vidro entre a persiana. Ali, parada com um vestido de alças, solto e vele, ela apanha seu celular que estava na bolsa que segurava com a mão direita e liga para a sua verdadeira amiga para pedir ajuda e que ela viesse apanhá-la, pois não se sentia segura para ir dirigindo. Falava chorando e com dificuldades. Sem saber muito o que fazer ou pensar, ela espera por sua amiga sentada na escada principal em frente ao hospital, imaginando o que seria de suas vidas dali para frente.
Muito bom... fiquei emocionada e curiosa para saber o desfecho desse episódio.
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