Quebra de Protocolo IV – Um Sonho, Um Quarto e Um Pedido
Ao
despertar, percebi que estava em uma sala totalmente branca. Havia uma jovem
mulher sentada de costas para a única entrada que havia ali naquela
sala. Em frente a ela também havia uma poltrona vazia, mas ao mesmo tempo
que era majestosa, também era digna de um rei ou pronta para ser ocupada por
alguém prestes a ser entrevistado psicanaliticamente ou apenas ser ouvido,
desabafar alguma coisa. Os cabelos daquela menina-mulher eram negros e longos.
Eram tão perfeitamente delineados que dava aparência de terem sido arrumados e
penteados em uma espécie de programa de computação ou ter recebido toque final
do próprio criador da beleza suprema. Pude perceber que seu braço estava jogado
em um dos lados da poltrona, deixando seu pulso totalmente à mostra em sinal de
estar completamente relaxada e à vontade. Parecia-me que ela já estava à minha
espera e já havia reservado seu horário há tempo e nem havia me convidado ou me
avisado. Ela não me deixou escolhas para recusar a minha entrada e permanência
naquele espaço. Logo, tive a sensação de medo profundo, pois eu não sabia se
ela estava ali disfarçada em nome da morte e pronta para levar
consigo meu último fôlego de vida, se para me julgar pelo meus
pecados de amor cometidos durante meus momentos de devaneio e vontade profunda
ou se para fazer de todos os meus medos e anseios mais profundos um fardo leve
e suave capaz de me aliviar as minhas sujeiras mais inconscientemente escondidas
e desarmar a bomba relógio de vontades das mais variantes camadas de toda
sorte de desejos ou, se por fim, embrulhar o meu corpo, alma e espírito e
transformar o que restara de mim em uma caixa preta e, dali mesmo,
arremessar ceu abaixo e me fazer morar, para sempre, no submundo
escuro dos mares esquecidos e não navegados. Juro. Eu realmente não sabia
o que aquela mulher estava fazendo ali naquela sala tão esquadrinhada e
preparada para aquele momento que, bem a dentro do meu ser, eu sabia que um dia
estaríamos ali. Não havia saída, literalmente. Eu tinha que estar diante dela e
ver quem ela era, o que queria de mim. Então, depois de pensar tudo isso em
questão de segundos, dei o primeiro passo quando minha mente me impulsionava ir
adiante e o meu corpo humano queria congelar minhas pernas e emoções. Mas
apesar de todo medo que me envolvia, eu sentia um cheiro já conhecido pela
minha alma. Uma fragrância que me deixava calmo e alegre
como uma criança a brincar. Ao dar o segundo passo, vi que ela passara a
mão em sua testa como se retirasse a franja do rosto para deixar seu olho
esquerdo totalmente livre para me fitar de um jeito que só as descendentes das
ninfas mais evoluídas na arte de amar dominavam com destreza e
excelência. Neste instante fui tomado por uma luz que vinha do teto que
era de estilo rebaixado e decorado com um grande espelho dividido em quadrados
de madeira entalhados à mão e vi uma imagem presa naquele espelho. Uma imagem
de um casal totalmente despido e envolvido como se descansasse de um longo e
gostoso momento de amor. Enquanto voltava meus olhos para o labirinto que
dava acesso ao caminho que levava àquela poltrona, percebi que ela já me
olhava há muito pelo canto do olho esquerdo do qual retirara o lindo cabelo
momentos antes. Engoli a saliva para tentar aliviar e disfarçar meu tamanho
nervosismo, mas já era tarde. Como uma canção, escuto sua voz me chamando pelo
meu NOME e pedindo para eu me sentar e ficar à vontade e sem medos. Logo as
paredes daquela sala branca, uma a uma, foram sendo tomadas por telas de
quadros pintados à mão. Enquanto o teto mostrava uma imagem presa no espelho,
os quadros nas demais paredes mostravam cenas vivas como em pequenos vídeos
feitos e editados, mostrando os mais variados e importantes momentos de
felicidade que Ela e seu Amor passara. Senti a sua mão macia e cálida tocar o
meu rosto. Neste momento senti uma paz tão profunda que foi capaz de purificar
a minha alma imunda e insegura, mas não pude ver o seu rosto, ainda, pois ela
me abraçara e me envolvia de tão forma que não sabia mais se
estávamos QUEBRANDO UM PROTOCOLO ou se era noite ou dia, se sonho ou se
realidade. Pude contemplar seu cheiro mais de perto e de maneira mais calma
unir-me à sua alma como um verso à espera de uma poesia. Vi que não usava
sapatos ou sandálias. Estava com os pés nus. Dava forma a um lindo
vestido branco que adornava cada forma de seu corpo. Estava totalmente envolta
e protejida por sua pureza física e interior. Vi em suas costas traços que
revelavam que ela estava transitando ora entre ser menina, ora em ser mulher.
Senti as batidas de seu coração conduzirem as batidas de meu em total harmonia
como se fosse ela um maestro regendo todo meu ser, mas eu ainda não era capaz
de entender porque eu estava ali. Então, fui conduzido a um quadro que ela
mesma pintara e neste instante a sala toda se fez turva como uma noite sem
luar, sem estrelas, luzes ou holofotes e ela me dizia: este quadro mostra
nossas GRANDES LEMBRANÇAS EM TÃO PEQUENOS DETALHES “INSIGNIFICANTES” e
uma dor logo me tomou e quis sair correndo sem direção, mas me dei conta de que
já não havia mais porta ou saída. Eu estava preso em mim mesmo. Na outra parede
ela me mostrou um quadro que mais parecia uma estrada. Vi ali que era
apresentado a porta de acesso ao seu bem maior, à sua fonte de prazer e
porta de vida. Logo, ela me diz. Tá vendo? Esta pintura é feita com meu próprio
sangue carmesim onde tu foste o pincel maior e disse: TOME A MINHA
PERSONALIDADE E DEVORE-ME EM ENTENDIMENTO. Quis me jogar para dentro, mas já
não havia passagem. Eu me senti tonto, pois estava tomado por um mix de
sentimentos. Perguntei:Por que sentes tanto rancor? Que mal te fiz eu? E logo
estava diante de uma tela em branco. Sim. Eu pude ver o seu rosto por inteiro,
no quadro. Ela já não estava mais ali ao meu lado. Naquele quadro vivo eu
apenas via ela tentando me dizer algo, mas apesar de seu esforço em falar e o
meu em tentar ouvir não fomos capazes de dizer ou retribuir um simples adeus.
Então fui despertado por meu inconsciente que já gritava em prantos,
eu estava completamento banhado por um suor frio e escandescente e
entendi que tínhamos quebrado um protocolo. Na verdade era pela
quarta vez que acontecera. Isso era algo que não deveria acontecer nunca mais.
Estávamos juntos no mesmo sonho. Ela linda e bela como sempre com cheiro de
amor, exalando prazeres e desejos de me ter e eu desejando tê-la
presa junto a mim. Tinha que ser sonho e nada mais. Aquilo só poderia
representar nossos desejos mais ardentes e, para sempre, proibidos.
Já estávamos em outros caminhos e ninhos e aconchegos e brancos e negros.
Andávamos como o sol e a lua, distantes. Separados pelo V de uma bifurcação de
nossa cidade. Ai que saudade de ti, amada de minha alma. Ai que raiva de mim
mesmo por possuir um inconsciente tão vadio e bagunceiro que não me
deixa em paz e não quer me deixar ser inteiro me trazendo sonhos e
pensamentos que não posso ter por dentro. O que quer que faça mais por ti? Quê
tatue teu nome em meu braço? Eu sei que pede ao Criador Maior que te livre de
mim e te traga um amor maior, mas que culpa tenho eu se quando penso que morri,
eu renasço como a Fênix a ti desejar? Não sei se daria conta
para fazer disso tudo uma simples lembrança presa em um quadro no espelho.
Sonhos sempre revelam algo. E sinceramente? Creio piamente que um dia isso
acontecerá (risos) e então, não poderá mais fugir como fizera neste sonho.
Farei você se despedir de mim e libertar a minha alma ainda que isso te custe
lágrimas nos olhos através de um Sonho, em um Quarto e
um Pedido feito que não sabemos o que é até então.
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