Quebra de Protocolo II




AFFF. Confesso que tenho tido muita vontade de te ver, mas é uma vontade diferente, doida, louca. É como se a música no carro me guiasse e quisesse me dizer qual esquina virar, qual placa seguir ou qual carro eu devesse ultrapassar ou quando e onde meu pé gélido e apressado devesse pisar um pouco mais forte no acelerador para que eu pudesse te fitar. Observar-te de longe, de maneira singular, através de um vidro escurecido ora pela dor da saudade, ora pela vontade de transparecer e te fazer saber que eu te vi, ora por uma película escura, mas a impressão que eu tenho é que quem me vê e faz tudo isso aí é você. Não te vejo, mas te percebo, te sinto de alguma forma que não sei bem como é, pois não é, talvez, de forma física, mas uma forma transmutada de um pouco de tudo e um pouco de nada. Se existe amor à primeira vista, havemos de confessar e admitir que esse tipo de sensação não parte de um sentimento de comiseração, mas da saudade natural das entrelinhas de coisas vividas e percebidas, talvez esquecidas ao consciente da mente comum e ordinária, saudade natural do que se viveu em dia normal para os outros, mas que para nós, eu e você, dentro das molduras daquele quadro que aprisionou e transformou o banal em algo que saiu do carnal e se configurou em um sentimento angelical do tamanho de um mundo meu e teu. Haja vista que tu me procuraste antes de me dizer adeus e tentou justificar uma partida, a retida de uma vida que estava ainda em seus primeiros momentos de gestação, sofrida, mas vivida até mesmo caso essa tal despedida viesse acontecer. Não sei o porquê, ainda, tento brigar contra a vontade de virar o volante e desprezar esse sentimento de ir ruas a dentro que nem sei aonde vão parar. Bem lá no fundo, não importa o que o mundo vai pensar de mim caso eu vá. Tenho ido. Atendido a essas minhas vontades porque sinto que, mais cedo ou mais tarde, eu vou esbarar em você ou você em mim, talvez na fila de um banco, ou no estacionamento do shopping. Quando acontecer, darei ordem ao chão para que ele se abra e sem medo de um perdão eu vou me desfazendo em pedaços ou grãos de átomos e irei me diluindo e sumindo de tua visão deixando apenas o meu cheiro de Quasar. Assim, aparecer para ti em uma vitrine, materializado e estampado com uma camisa de botão, lindo e sorridente para que possas juntar o meu cheiro no ar, a camisa de botão e no teu corpo encarnar de forma bem real para que tu possas ver que essa tal vontade de rever um amor-alguém não é loucura ou imaginação banal. Alguns diriam que é apenas vontade platônica ou uma forma de cotejar com os pensamentos teus e de um amor-além, distante, porém latente e iminente, doido para pensar nele e imaginá-lo alegre, sorridente e sem algemas ou correntes, perdido nos braços e laços de um amor-comum. Uma vontade maior que eu. Uma vontade maior que o teu orgulho, um orgulho que não é nem meu nem teu. É da vida não vivida. É uma vontade perdida, mas que lá no fundo dá uma alegria sem medida e que traz um riso alegre no canto do rosto e um balançar de cabeça dizendo “não” e que nem percebemos que damos quando somos furtados por essa tal “vontade de rever um amor-lembrança”. Quem nos vê nesse momento não tem o poder de saber que naquele instante não estamos ali em pensamento, mas que estamos lá no passado arrebatados por um fragmento de sussurro arrancado ou por um primeiro-beijo-roubado-noturno, mas pensado e maquinado por dias e noites. Ai que vontade de te roubar de ti.  Ops, hora de trocar a música do carro e voltar para o esparro de pensar que a vida me deu de presente.

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