Quebra de Protocolo XII
O
dia amanheceu fresco e nublado, não chovera durante a madrugada, mas ainda era
época de chuva. O tempo estava um pouco bagunçado pelo fim da estação, o
barulho de alguns carros anunciava que a cidade já havia acordado e logo
começaria a rotina cotidiana. Elian não tinha ânimo para se levantar da cama,
passou maior parte da noite em claro tentando achar uma solução ou uma maneira
melhor de lidar com aquela situação. Estava com medo e angustiada pelas
notícias que recebera no dia anterior. Chorou demasiadamente por algumas horas.
Anne dormira lá, decidiu fazer companhia à sua amiga pois não queria deixá-la
sozinha no estado em que se encontrava. Ela precisava conversar e desabafar. A
incerteza e a ideia de criar seu bebê sem o amor do pai era o que lhe preocupava,
ela sabia que muitas mães solteiras conseguiram driblar esse problema, porém já
havia criado a expectativa de enfim estar com seu amado vivendo numa ilusória
família feliz. Não seria fácil lidar com a perda de memória dele, já que os
médicos não sabiam dizer a duração desse problema, poderia ser permanente.
Momentos de paixão e cumplicidade apagados por um trágico acidente. Depois de
alguns incentivos, Elian se levantou e foi tomar um banho quente, era
sexta-feira e o dia seria longo, além do trabalho, daria aulas de artes
plásticas para jovens de uma comunidade. Era a única coisa que a animava
naquele momento, pintura é uma das coisas que a deixam mais feliz e estar com
os meninos com certeza seria gratificante. Ao final do dia, ainda havia tempo de
visitar o seu amor, o horário de visitas do hospital era até às 20 h. Ao
chegar, ele sorri ao vê-la, ainda não recuperara a memória, mas sua companhia
era agradável. Perguntou sobre o bebê e sobre muitas outras coisas, conversaram
bastante. O bebê já completaria quatro meses em algumas semanas e faria a
primeira ultrassom. Bryan não poderia acompanhar pois ainda não
estava em condições de sair do hospital, precisava se recuperar das cirurgias e
do longo período em que ficou desacordado. Fazia fisioterapia e exames
psicológicos. Durante os próximos dias, Elian continuou com as visitas
regulares, ia vê-lo sempre que podia. O jeito apaixonado que ele tinha estava
bem discreto ao olhar dela, Elian sentia falta do “eu te amo” tão verdadeiro
que soava dos lábios dele, o amava tanto! Ela lhe deu um desconto, afinal,
estavam conhecendo um ao outro novamente. Tudo para ele era novo, e aparecer
uma mulher linda em sua vida dizendo esperar um filho seu era ainda muito
estranho, tentava retornar o mesmo carinho que ela demonstrava sentir por ele,
pelo menos tentava, não era tão difícil, ela o deixava alegre e o fazia se
sentir bem, era risonha e de presença aconchegante. Fazia esforço todos
os dias para recuperar a memória. Sem sucesso até o momento. Seu eu legítimo
estava escondidinho em algum lugar de sua consciência, bastava achar. Alguns dias
se passaram, chegara o dia da consulta, Elian estava animada e ansiosa, veria
pela primeira vez o seu bebê...ouviria o coração e talvez pudesse saber o sexo.
Sua amiga Anne a acompanharia, claro...a titia coruja. Não dava para saber quem
estava mais empolgada, a mãe ou a acompanhante (rsrsrs). A clínica era bem
decorada: mobília aconchegante num estilo rústico e moderno ao mesmo tempo,
quadros abstratos enfeitando as paredes de pintura roseada, algumas revistas em
mesas de cento ao lado das poltronas e pequenos jarros de flores em prateleiras
de vidro. Não de demora muito e Elian ouve seu nome ser chamado para um dos
consultórios da clínica. O médico a recebeu convidando-a para se sentar em uma
das cadeiras acolchoadas em frente a sua mesa e começou a fazer a entrevista.
Era bastante paciente e gentil, demonstrava segurança, sabedoria e explicava
tudo com cautela...grávidas adoram perguntar, então, ele estava bem preparado
para isso (rsrs) ...todo médico deveria ser assim. O exame ocorreu muito bem, a
saúde estava ok, tamanho e circunferência da cabeça estavam ok para a idade,
coraçãozinho batendo forte, mas havia uma SURPRESA...

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