Quebra de Protocolo III
Entre tantas idas e vindas embebecidas pelas obrigações diárias de se
cumprir horários, prazos e atendimentos, fui tomado por uma visão estranha,
creio eu que estivesse ficando louco, pois, de tanto ter vivido pouco nos
últimos dois anos, aquela imagem me fez duvidar do meu próprio olhar. Como isso
pode está acontecendo? Se era verdade ou não, deveria ser pelo sentimento de
comiseração que ainda insistia em ser perfeito e insistia em ficar brincando no
meu peito em noites, dias e leitos. Como a minha cidade era cheia de tudo e
cheia de nada, lá estava eu cruzando aquela grande e magnífica avenida por onde
sempre passava e por onde eu sempre era surpreendido pelo próprio nada que ali
habitava. Quando a oscilação de meu olhar foi capturada por uma imagem que
era feita de tudo e aniquilava, por um momento santo, aquele vazio e os resquícios do nada tão doloroso e frio. Seria Ela andando? Praticando atividade
física? Pensei assim rapidamente enquanto trocava de marcha e de direção
naquela avenida dupla e de mão única. Todos os traços que vi naquela imagem me
lembravam em perfeição que eu estava certo e que meu pensamento não estava na contra-mão do momento. Como em Matrix, tudo pareceu tão parado e tão em câmera
lenta que minha alegria quase se arrebenta de tanto saltitar. Seu cabelo
escuro, “liso” e rasuravelmente longo e curto, seu jeito de pisar o chão, de mexer os braços,
de olhar para os lados, de sorrir, aquela pintinha no pescoço, sua pele e
dorso. Não! Apesar de ter sido tentando, eu não olhei para trás, pois sabia que
não poderia ser ela. Aquilo era muita loucura poética brincando de ser alegre.
Eu sabia que ela tinha ido embora sem se despedir entre o escurecer do dia e o
nascer da aurora. Ela teve que partir juntando desculpas, farpas e agulhas e o
fato de ter que ajudar seu irmão que adoecera. Fora para longe. Então, tomei
outro caminho para não correr o risco de voltar pelo outro lado da via levando
meu coração a ser atropelado novamente na contra-mão. Porém, confesso que a
vontade era de ter parado, deixado toda meninice humana de lado, estacionado o
carro um pouco mais à frente e ficar parado com os braços cruzados e com óculos
escuros para vê-la vir em minha direção, olhar para ela e sem palavras de ambas
as partes trocar um abraço licencioso e belo. Refrigerar a alma e pigmentar
nossos corações com partículas de sangue vermelho e aliviar-se de imagens no
espelho. Dar vida a elas e deixá-las ir para onde quer o por vir. Era ter com
ela um breve momento vida a dentro para se ser maior do que crenças, traumas e
amarras e rir da vida e saber que mais se valeu à pena ter sofrido a dor de um
amor-romeu e ter uma bela história para se contar e lembrar pela eternidade do
que viver da mesmice de um amor qualquer. Saber que viver um amor comum todos
podem viver, mas que ir de encontro a todas às barreiras para se ser feliz só
nós fomos. Sim! Que fomos Montecchios e Capuletos, Romeu e Julieta!
Quebrar protocolo é saber que um dia, ainda, eu possa te dizer tudo isso
deitado em seu colo ou através de um simples sorriso quando te ver de verdade
por uma das avenidas da cidade ou em um encontro trazido pelo tempo ou pela maturidade
da idade dos que nos amam. ( ... )
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