Quebra de Protocolo I
Olhe, eu não vim aqui para
bagunçar a sua vida e nem para ser pedra despida em seu caminho. Eu não vim
aqui para fazer de doces lembranças e vivências flores murchas e cheias de
espinhos. Não passei aqui para te pedir perdão, para me desculpar ou fazer
disso um instrumento de santificação e redenção. Passei para tentar tirar
através da arte de poetizar a dor que habita meu peito, pensamentos e leito, e dias,
e noites. Sei que da mesma forma que começou, terminou. E que, por mais que
pareça besteira, tentar segurar os ponteiros do tempo e fazê-los parar e se
eternizar a não ter que tomar decisões tão árduas deveria ser possível ao
visível e aos mortais como eu. Eu não vim aqui para te pedir um encontro, um
selo ou acorrentar a tua alma. Só queria, com um pouco de calma, aliviar a
minha alma que tanto por ti se encantou, se apaixonou e se amou. Já disse em
outro poema que se o teu perdão tivesse preço, eu ficaria sem endereço, sem
apreço, sem coração para tê-lo em minhas mãos. Não se sabe o que dói mais: deixar ser preso por outros
cais. Cais original, primário ou sentir a dor de fracassar frente a um amor
ardente, puro e verdadeiro. Pena tenho de mim mesmo por não puder ter sido inteiro,
completo e certeiro em decisões sem portas. Eu não vim aqui expressar
sentimentos de comiseração nem mexer contigo sem razão. Juro que não vim aqui
te fazer lembrar que o mais puro sangue teu em mim escorreu e me penetrou tão
profundamente que há ainda partículas lindas e quentes atordoando a minha mente
e que me fazem te ver rindo e bela à espera, talvez, do sinal se abrir para que
você pudesse avançar em um Siena Branco de vidro escuro e ir a algum lugar sem rumo e sem direção. Confesso que ir ao mais
profundo do teu quarto lilás e escuro foi o ato mais lindo e seguro que de ti
pude ter como prova de amor a mim doado. Fernando Pessoa fala de se abrir e
fechar ciclos e que na vida isso é natural. Mas como posso, então, te mostrar
que tive que ir, além disso, e que por conta de dois pedidos empunhados em
minha cabeça como arma sem graça e sem coração obrigado fui, então, deixar um
ciclo largado no chão à espera de um perdão e de uma compreensão? Se gritar resolvesse alguma coisa, juro que
gritaria teu nome em um microfone na Avenida Rio Branco para que lá daquele
canto, através de um quadro pintado por tuas mãos tu pudesse me ver e ouvir
largado um tanto, preso em tuas pinceladas aguçadas e embaralhadas. Juro que
não há dor maior e nem punição pior do que a dor de pensamento. Tormento. E o
não entendimento da parte alheia. O que me traz um pouco de calma é olhar para
o céu e te ver brilhando ora como sol, ora como lua. É saber que a minha
estrela de Davi pintada por ti está aqui, além do meu braço, pendurada em meu espaço. Sem fala e com silêncio, ouço
muito de ti e do teu sucesso. Ufffa. Com poucas linhas de ousadia e poesia me faço um pouco mais aliviado...
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